Cuidados com a saúde mental do trabalhador no pós-Covid-19

Oito em cada dez brasileiros ficaram mais ansiosos na pandemia. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS) que ouviu 1.996 pessoas entre maio e julho. Esse número agrega pessoas que desenvolveram ou tiveram um aumento dos sintomas de estresse, depressão e episódios ansiosos. Segundo os pesquisadores, o motivo pode estar em questões socioculturais e econômicas.

Quando pensamos no retorno ao escritório, nos deparamos com pessoas que enfrentaram meses de home office, desenvolveram preocupações, medos e ansiedades, e, agora, voltam ao local de trabalho, mostrando que a saúde mental do trabalhador é uma pauta essencial para as organizações. 

O artigo acadêmico “Covid-19 e organizações: estratégias de enfrentamento para redução de impactos”, publicado na Revista Psicologia: Organizações & Trabalho, explica que encontrar estratégias para frear o aumento da ansiedade dos colaboradores deve ser uma preocupação central dentro das organizações, até mesmo para evitar que essa situação atinja diversos membros da equipe. 

Pensando nesse cenário, preparamos este artigo com dicas de ações que a sua empresa pode implementar para cuidar da saúde mental do trabalhador em um cenário pós-Covid. 

Crie um comitê dentro da empresa

O primeiro passo para cuidar da saúde mental do trabalhador é organizar um comitê que ficará responsável pelas ações e pelo desenvolvimento de estratégias de saúde e ouvidoria interna. Para isso, você pode chamar os líderes de cada departamento, gestores, os profissionais de recursos humanos e, se houver, o psicólogo da organização. 

O objetivo é contar com os líderes para fazer uma aproximação entre os colaboradores de cada time, mantendo diálogo e verificando como eles estão se sentindo, quais as necessidades individuais e coletivas, quais as demandas que gostariam de passar para a empresa e como incentivar o fortalecimento de laços para que as pessoas se sintam seguras e incentivadas a procurar ajuda caso estejam com qualquer problema – pode ser desde uma dor física até sentimentos de angústia e ansiedade. O importante é abrir espaço para o diálogo.

Quanto aos profissionais de recursos humanos, é importante que eles se mantenham ativos na busca de estratégias para o desenvolvimento de uma boa comunicação interna e que implantem políticas mais humanizadas, que possam receber bem os profissionais que estão voltando do home office e aqueles que continuaram nesse modelo, se for a realidade do seu escritório. 

Caso nenhum profissional da psicologia atue na empresa, conte com ajuda externa. Procure alguém especializado em saúde mental do trabalhador e crie uma parceria para que essa pessoa possa ser um membro do comitê e ajudar ativamente nas ações promovidas.

Grupo de pessoas com máscara no rosto enquanto fazem reunião

O comitê pode mapear quais pontos podem ser melhorados para proporcionar mais saúde mental no ambiente de trabalho.

Mas, afinal, por que é importante a criação de um comitê? De acordo com a psicóloga especialista em gestão de pessoas Gisele Fonseca, é importante refletirmos sobre como será a volta às empresas. “Não somos mais os mesmos, está tudo diferente, tivemos que aprender uma nova realidade. Podemos dizer que esse regresso não será de uma forma única, cada empresa terá que avaliar como fazer o retorno de forma segura”, destaca. 

Segundo a psicóloga, empresas precisam fazer uma série de ajustes, como rotina, mudanças de horários e, principalmente, focar na saúde física e mental do trabalhador. “A ansiedade pode estar presente no retorno às organizações, especialmente pela positividade que o home office trouxe, de trabalhar seguro e protegido. O colaborador começa a se questionar se ele vai se sentir tão bem quanto quando estava em casa.”

Além da ansiedade, o medo pode vir acompanhando. “O medo é um mecanismo natural de proteção. Quando voltamos ao local de trabalho, é normal que o colaborador comece a se questionar se irá pegar a Covid ou se corre riscos de transmitir a doença para algum colega”, explica Gisele. 

Abra espaços para diálogo

Nem sempre é fácil criar laços com colaboradores para que eles possam se sentir à vontade para expor sentimentos, percepções e problemas, não é mesmo? Isso pode acontecer por diversos motivos, como a ideia de que vida pessoal e trabalho não se misturam, o medo de compartilhar opiniões e ser punido, a visão de hierarquia entre colaborador/líder e, também, a própria personalidade da pessoa, que pode ser mais introvertida. 

Entretanto, quando pensamos em saúde mental do trabalhador, nenhum desses pontos devem ser barreiras e, portanto, outras estratégias precisam entrar em campo. Em seguida, separamos algumas.

Encontros virtuais entre todas as pessoas da empresa

Independentemente do modelo de trabalho implantado no escritório, os encontros devem acontecer de forma virtual, até que o vírus esteja mais controlado e possamos permanecer em grupos maiores sem perigos. 

Se o seu time trabalha de forma híbrida ou remota, de fato, não há como escapar aos encontros virtuais. Mas se a equipe já voltou para o escritório, tente separar pequenos grupos em áreas diferentes da empresa para poderem estar na reunião sem que isso gere riscos. 

A ideia dos encontros virtuais com todos (importante a gestão participar!) é poder engajar os funcionários, dar o sentimento de pertencimento, mantê-los atualizados sobre ações que estão sendo realizadas e outras novidades que vão surgindo. Esse tipo de reunião pode trazer a sensação de que todos continuam unidos, próximos, independentemente das circunstâncias. 

Formulários anônimos

Os formulários anônimos sempre funcionam muito bem e deixam o colaborador à vontade para falar dos problemas que o incomodam. Se preferir, pode deixar um campo para preencher com o nome, desde que seja opcional, respeitando o anonimato daqueles que não querem se revelar. 

Nesse formulário, procure medir qual a percepção que as pessoas têm da empresa no momento atual, o nível de satisfação, se sentem falta de algo e o que poderia mudar. Reserve um espaço para que elas compartilhem suas experiências com o home office (ela pode ser diferente para cada indivíduo). 

Ao aplicar essa ação, é importante não cair em ideias tradicionais de querer saber quem foi a pessoa que fez alguma crítica construtiva ou reclamação, afinal, nada é perfeito e boas empresas se constroem com ideias e pontos de vista diferentes. Aceite os comentários e trabalhe para mudá-los.

Dica: algumas perguntas que podem ser feitas 

Plantão de recursos humanos

Como dissemos anteriormente, nem todos os colaboradores vão se sentir à vontade para conversar com líderes ou outros colegas. Entretanto, os profissionais de recursos humanos, em geral, são pessoas com quem a abertura para dialogar e expor problemas é maior, assim como são profissionais com ferramentas e conhecimentos específicos para lidarem com as situações organizacionais. 

Portanto, pense em criar um plantão com o pessoal dos recursos humanos, ou seja, conversas virtuais, marcadas com certa periodicidade para estabelecer um diálogo individual com os colaboradores para verificar como tem sido a rotina no trabalho, presencial ou não. Para os que estão de home office, veja se precisam de algum auxílio quanto à estrutura e questione sobre a saúde mental e física. 

Momentos de bate-papo com temáticas

Os bate-papos que abordam temáticas específicas são sempre ótimos para esclarecer dúvidas e trazer insights para a equipe de trabalho. Você pode criar um calendário de palestras virtuais que abordem temas de interesse. 

Uma sugestão é convidar um médico infectologista para explicar melhor como a disseminação do vírus pode acontecer em ambientes de trabalho, de forma que mantenha todos informados e, até mesmo, calmos, ao ver que alguns cuidados podem ser muito eficientes. 

Disponibilize informação e treinamentos

O acesso a informações de qualidade é fundamental no momento de pós-pandemia, especialmente quando a divulgação de notícias falsas é constante pelas redes sociais, o que pode causar mais estresse e pânico. Além disso, muitas pessoas voltam aos escritórios com medo de serem contaminadas e sem saber ao certo como podem ser atingidas pelo novo coronavírus.

Ao receber os seus colaboradores, distribua cartilhas informativas que expliquem com clareza as novas regras do escritório, como acontece a disseminação do coronavírus no local de trabalho e quais ações a empresa vai realizar para cuidar da saúde mental do trabalhador. Reforce a prática da empatia, do altruísmo e incentive a equipe a conversar e procurar ajuda. 

Prepare treinamentos, palestras e conversas para que as pessoas saibam como agir na volta ao modelo presencial, o que podem ou não fazer e também a entender as novas regras do escritório e os cuidados a serem tomados.

Dica: junto com a cartilha, ofereça um kit de prevenção. E lembre-se: mantenha horários flexíveis para que os colaboradores possam organizar a vida pessoal e não force o regresso daqueles que não estão prontos para sair do home office.

Homeme tomando café enquanto faz videochamada

Grupos de apoio também são ótimos para compartilhar experiências e sentimentos entre os colaboradores.

Apoie a procura por terapias

Se o diálogo e a exposição de problemas são essenciais para a saúde mental do trabalhador, fica claro de que o apoio psicológico não poderá faltar. De acordo com a psicóloga Gisele, “é muito importante que empresas promovam programas e palestras que abordem a medicina preventiva sobre a saúde mental envolvendo todos os colaboradores, mesmo que seja feita dividida em grupos ou por horários. Esses programas são importantes para apresentar novos conceitos e possibilidades, auxiliando em uma boa saúde mental.”

A psicóloga ainda explica que o home office pode ter pontos muito positivos, como produtividade, praticidade e conforto, mas a prática também pode causar um estresse pelo contato com filhos, tarefas domésticas e trabalho, assim como o expediente com horas extras. Em um dos nossos artigos do blog, já conversamos sobre Síndrome de Burnout, que pode ser gerada por excesso de trabalho e esgotamento.

Ao pensarmos nesse quadro, as empresas podem trilhar um caminho de bem-estar para os funcionários por meio de consultas com psicólogos, que podem acontecer de forma virtual ou presencial. A gestão pode fechar parceria com uma clínica em específico ou, se desejar, oferecer mais possibilidades, criar uma ajuda de custo para que o colaborador sinta-se à vontade para encontrar o profissional em psicologia que desejar. 

Dica extra: ajude o colaborador a identificar os sinais

Conhecer os sinais de que é preciso cuidar da saúde mental do trabalhador é essencial, até mesmo para evitar situações mais graves, como depressão ou esgotamento profissional. Portanto, a psicóloga Gisele dá algumas dicas de pontos que merecem atenção:

A psicóloga indica que, caso a pessoa sinta que as coisas estão fugindo do controle, é o momento de pedir ajuda, e isso pode ser com algum colega do trabalho, gestor ou outro profissional. “É muito importante que parta da empresa o cuidado de observar, assim como do colaborador em procurar auxílio, para que isso não interfira na qualidade da saúde mental”, conta Gisele. 

A psicóloga, que atualmente atua no atendimento clínico em uma UBS (Unidade Básica de Saúde) de Maringá, conta que a procura por ajuda psicológica aumentou no período de pandemia, o que acende um alerta sobre a importância do acolhimento por parte das empresas para garantir mais qualidade de vida e uma boa saúde mental.  

O cenário pós-pandemia ainda traz muitas dúvidas e incertezas, entretanto, a prevenção e os cuidados com a saúde mental do trabalhador devem ser analisados desde já, para evitar quadros negativos que possam ocorrer como resultado da experiência intensa do isolamento social e da crise do novo coronavírus

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